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Diálogos literários

A porta se abre. O homem entra segurando firmemente um pacote ao peito. A porta se fecha.
O cochicho começa.
– Olhem lá. Será mais um de nós? Quantas páginas ele deve ter?
– Deve ser. Isso cheira a traição.
– Calma, Bentinho, ele vai abrir o pacote.
– Essa disputa é tempo perdido.
– Ao vencedor, as batatas, Proust.
– Lá vem você com essa frase, Quincas. Vira a página…
O homem retira um livro da apertada caixa de papelão.
– Sabia. Eu falei pra vocês aprenderem a arte da guerra.
– Espera, Sun Tzu. Já passamos pelo Inferno e Purgatório, quem sabe agora seja o Paraíso.
– Nossa, Dante, que viagem…
– Claro, só podia ser comentário do Gulliver.
– Podem apostar, ele vai virar algumas páginas e depois ficará de lado, assim como a maioria de nós.
– Agora é a hora de pensar em como pegar o poder e se manter nele.
– Menos, Maquiavel, menos…
– É… a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar.
– Esse não é o momento pra chorar, pequeno príncipe.
– Não é um monstro de olhos verdes, mas de capa verde. E lindo. E perigoso.
– Que drama, Iago. Não fique com ciúmes. E também não se deve julgar um livro pela capa.
– Para você é fácil, é autoajuda.
– Não se nasce autoajuda, torna-se autoajuda. Sem referências ao Segundo sexo.
– Se cada um começar a falar, isso vai virar o Jogo da Amarelinha. Que Deus tenha Cortázar.
– É, o inferno são os outros…
– Garcin, podemos voltar ao assunto? O que vamos fazer com ele?
– Por que em vez de comprar um novo ele não escolhe, dentre nós, algum que ainda não tenha lido?
– Sinceramente? Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia…
– Não começa, Hamlet…

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